Fundação Clóvis Salgado inaugura as exposições Borda! e Ocupação de Artes Visuais

Tradição do bordado na contemporaneidade pode ser visto na PQNA Galeria. Ocupação de Artes Visuais apresenta artistas selecionados no edital 2017 que investigam as tensões sociais da contemporaneidade

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Obra de Eder Oliveira, autorretrato, 2016, em exposição no mês de maio, no Palácio das Artes
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Os projetos escolhidos para o Edital de Ocupação de Artes Visuais, da Fundação Clóvis Sagado (FCS) - iniciativa já consolidada no cenário artístico de Minas Gerais e do país, que chega à sua 10ª edição em 2017, colocam em destaque tensões sociais da contemporaneidade.

Obra de Ricardo Burgarelli - Foto: Divulgação FCS

Os trabalhos selecionados são de autoria de Éder Oliveira (Pintura – ou a Fotografia como violência), Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa (MãePreta) e Ricardo Burgarelli (PanAméricadsueño).

A representação social de mestiços na região Norte; o resgate do protagonismo da mulher negra na história do país; e a atual conjuntura sociopolítica do continente americano figuram a exposição, com inauguração marcada para o dia 12 de maio, se estendendo até 13 de agosto.

O fascínio pelos retratos e a curiosidade por rostos desconhecidos inspiraram Pintura – ou a Fotografia como violência, trabalho do paraense Éder Oliveira. “O retrato também é um símbolo de status social, então eu queria fazer uma coisa avessa. Algo que contradissesse isso”, ilustra.

Com sua primeira exposição no Palácio das Artes, o artista destaca a importância de ocupar uma das galerias da Fundação Clóvis Salgado e provocar a reflexão também para o público mineiro. “Espero que as pessoas consigam refletir sobre essas imagens e sobre o momento em que vivemos, quando tudo parece tão virtual e pronto. Acredito que a arte tem esse poder de nos fazer olhar mais para o lado e perceber problemas e situações ao redor”, diz.

“Considerando que a proposta do edital é valorizar a arte contemporânea, as obras acabam por refletir esse momento de tensões sociais que vivemos em nível mundial. É inevitável”

Uiara Azevedo, Gerente de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado

A exposição MãePreta, das pesquisadoras e artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa vem dedicar seu olhar, prioritariamente, às mães negras e suas relações com seus filhos de sangue, mas também à relação entre as amas e os filhos brancos dos senhores.

Obra de Patricia Golvêa - Foto: Divulgação FCS

As artistas ressignificam arquivos do período da escravidão para contar uma outra versão da história, na qual as negras escravizadas são protagonistas.

”Nem eu nem a Isabel somos negras, então, não temos e nunca sofreremos a mesma experiência do racismo e da violência que as mulheres negras. Como artistas e como seres humanos, podemos usar dessa prerrogativa para falar dessas questões”, diz Patrícia.

O Edital de Ocupação de Artes Visuais da FCS busca fomentar a produção artística contemporânea em todo o Brasil. Como prêmio, os artistas receberam R$ 4.000,00 (cada), para a montagem das exposições.

Foram convidados para a seleção dos trabalhos Daniel Toledo, pesquisador e crítico em artes visuais; Manoel Macedo, galerista; e Marcos Hill, artista plástico, pesquisador e professor da UFMG.

Artistas como Adriana Maciel, André Griffo, Bete Esteves, Marcelo Armani, Nydia Negromonte e Ricardo Homen já tiveram seus trabalhos contemplados em edições anteriores do Edital. 

Borda!

Os artistas Domingos Mazzilli, Juçara Costa e Rodrigo Mogiz usam linha e agulha para alinhavar diferentes narrativas e instigar reflexões que passam pela dor, homossexualidade, apagamento feminino e as construções sociais de gênero nos trabalhos em destaque na exposição Borda!, que a Fundação Clóvis Salgado inaugura, na PQNA Galeria, localizada no Palácio das Artes.

A curadoria do presidente da Fundação Clóvis Salgado, Augusto Nunes-Filho, busca ressaltar a subjetividade dos indivíduos. As relações humanas, a violência e a delicadeza são o fio condutor da mostra que evidencia as potencialidades da técnica do bordado, marcando o diálogo entre a tradição e a contemporaneidade.

As obras da mostra Borda!, que poderão ser visitadas a partir desta sexta-feira (5/6), no Palácio das Artes, têm a utilização do bordado livre, sobre diferentes superfícies como fotos e tecidos, como fio condutor da exposição. 

Bordar a carne e o mundo

Obra de Mazzili - Foto: Divulgação FCS

Em “Carne Viva”, a dor e o feminino dão o tom ao trabalho de Mazzilli em seis impressões fine art em canvas de fotografias feitas entre os anos 1930 a 1960 – cinco de sua própria família.

A técnica do bordado é feita com sanguíneas pérolas para realizar intervenções no olhar das figuras, criando seu ‘ensaio sobre a cegueira’. 

“Bordar é algo agressivo, você atravessa um furo, uma superfície com linha e agulha.  Isso te permite bordar qualquer coisa, da carne ao mundo”, diz Mazzilli.

Descaminhos do bordado

Juçara Costa expõe um painel floral, resultado do método que chama de Desenho Bordado, título da própria exposição. Sem qualquer traço prévio no tecido, a artista começa a desenvolver a técnica do bordado livre.

Obra de Juçara Costa - Foto: Divulgação FCS

“O meu trabalho é baseado no descaminho, na possibilidade de experimentar. Eu vou desenhando enquanto vou criando, não tem nó e não tem avesso, nem o objetivo de fazer algo perfeito”, explica a artista, que também é atriz e dá cursos sobre o Desenho Bordado.

A obra que trará à PQNA Galeria, Desenho Bordado, ainda está em construção. “Tenho virado as noites trabalhando nesse bordado, mas a ideia é criar uma peça inacabada que, inclusive, terá uma linha solta”, diz a artista.

Bordar o corpo e tatuar o tecido

Em suas obras, Rodrigo Mogiz provoca reflexões sobre questões afetivas e sexuais. O público encontrará, na exposição Borda!, figuras retiradas de páginas de revistas, personalidades midiáticas ou de mitos e contos de fadas, feitos em tecido – bordados.

Mogiz se aproximou do bordado de forma natural. “Tem uma questão forte com a linha. O desenho se faz com a linha. O bordado é quase como se fosse a linha do desenho materializada, saltando para fora”, explica o artista.

Em comum, as obras de Rodrigo abordam a questão homoafetiva a partir de uma técnica que é muito ligada ao universo feminino. “A discussão dessa aparente contradição, de falar do masculino a partir de algo que é percebido como feminino, acabou fazendo parte do trabalho, mas não era uma questão inicial. Hoje é muito importante”, conclui Mogiz.

Obra de Rodrigo Mogiz - Foto: Divulgação FCS

Exposições do Edital de Ocupação de Artes Visuais 2017

Galeria Genesco Murta – Pintura – ou a Fotografia como violência, de Éder Oliveira

Galeria Arlinda Corrêa Lima – MãePreta, de Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa

Galeria Mari’Stella Tristão – PanAméricadsueño, de Ricardo Burgarelli

Data: 12 de maio a 13 de agosto

Local: Palácio das Artes

Clique aqui e confira detalhes sobre as exposições e os artistas 

 

Exposição Borda!

Data: 5 de maio a 25 de junho

Horário: De terça à sábado, de 9h30 às 21h, e domingo de 16h às 21h

Local: PQNA Galeria – Palácio das Artes 

Clique aqui e confira detalhes sobre as exposições e os artistas 

 

Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes

Endereço: Av. Afonso Pena, 1537 – Centro

Informações: (31) 3236-7400. Entrada gratuita nas exposições Borda! e Ocupação de Artes Visuais



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