Ensino Médio Integral e Integrado é tema de pesquisa desenvolvida pela Unesco

Com quase 900 páginas, o documento mostra que, apesar de desafios que ainda precisam ser superados, a educação integral foi muito bem recebida em Minas Gerais

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Escola Estadual Governador Milton Campos foi uma das que participou da avaliação
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Depois de sete meses de estudos e pesquisas, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE) recebeu o documento final com os resultados e considerações do trabalho desenvolvido em 18 escolas estaduais Polos de Educação Múltipla (Polem), que oferecem a Educação Integral e Integrada no ensino fundamental e médio para avaliar os avanços e desafios desta modalidade. O estudo foi realizado por consultores da Unesco, sob a coordenação da equipe da SEE.

Por meio de um acordo de cooperação técnica, os consultores visitaram cada uma das 18 escolas e fizeram rodas de conversa com os estudantes, pais ou responsáveis e professores e entrevistaram coordenadores, diretores e os responsáveis pela Educação Integral e Integrada nas Superintendências Regionais de Ensino.

Com quase 900 páginas, o documento mostra que, apesar de desafios que ainda precisam ser superados, a educação integral foi muito bem recebida e aceita pelas escolas, estudantes e comunidade.

De acordo com a coordenadora de Educação Integral e Integrada da SEE, Cecília Resende, o estudo foi conduzido de maneira que fossem avaliados a infraestrutura, a gestão e o aspecto pedagógico das escolas Polem. Em todas as escolas visitadas aparece como ponto positivo o poder de escolha dos jovens para a parte flexível do currículo do ensino médio na Educação Integral e Integrada.

Cecília Resende explica que as famílias perceberam a diferença até dentro de casa. “As mães e pais contam que, agora, os filhos chegam da escola contando sobre o que aprenderam, e isso antes não acontecia, não se falava da rotina escolar dentro de casa. Hoje é diferente porque, como eles aprendem o que escolheram aprender, ficam mais interessados e se sentem mais pertencentes à escola”, diz a coordenadora.

Outro ponto que teve muitos comentários positivos foi a merenda escolar. No Ensino Médio Integral e Integrado, os estudantes fazem quatro refeições – café da manhã coletivo, almoço e dois lanches, um no meio da manhã e outro à tarde. “Um diretor relatou que nos primeiros dois meses os estudantes até engordaram, pois a comida é muito boa” brinca Cecília.

Além da aprovação dos estudantes, a avaliação dos pais também é muito positiva, já que a qualidade dos alimentos é garantida e que a possibilidade do convívio no café coletivo faz bem aos jovens.

Em nenhuma das entrevistas realizadas foi registrado qualquer tipo de resistência por parte do corpo docente e isso foi mais um destaque do estudo. Na realidade, professores, estudantes e familiares também demonstraram total aceitação, e todos estão abraçando o Ensino Médio Integral e Integrado com muito carinho.

Na avaliação de Cecília, esse estudo foi de grande importância porque reafirma o compromisso da secretaria em manter o diálogo e em promover o protagonismo juvenil e também porque representa a construção coletiva do Ensino Médio Integral e Integrado.

“Com mais de 30 anos de profissão e seis de gestão de políticas, este é um momento que enche meu coração de alegria pelo ato democrático que representa, pela capacidade de mobilização que tivemos. Então, quando se pensar em Educação Integral e Integrada, Minas Gerais tem que se orgulhar e saber que isto é não é um projeto político, é um legado para os estudantes mineiros”, afirma.

Desafios

Cecília explica que foram detectados cinco grandes desafios, apontados por estudantes, professores e familiares. O primeiro deles é a obrigatoriedade de cumprir a carga horária ampliada para 45 horas/aula semanais, em vez de 25, antes da implantação da metodologia.

“Muitos jovens não podem ficar na escola todo esse tempo, ou porque têm que ajudar a família no sustento da casa, ou fazem um curso fora da escola, ou cuidam de irmãos mais novos ou idosos da família. Então, vamos estudar uma maneira de fazer com que o Ensino Integral e Integrado seja por adesão, por escolha, e não por obrigação”, esclarece Cecília.

O segundo ponto a ser trabalhado é a infraestrutura de algumas escolas. Muitas necessitam de grandes reformas em vestiários e refeitórios. De acordo com Cecília, já está em estudo uma forma de viabilizar as adequações nas escolas onde isso for preciso.

Outro desafio que ficou evidente é o desejo de participação dos estudantes do ensino fundamental – eles também querem opinar sobre seus currículos, falar do que querem estudar, do que preferem ter como merenda, por exemplo.

Para resolver isso, Cecília explica que também já estão sendo elaboradas propostas de solução. “Esse é um ponto muito bom porque está claro que vamos ter que aproximar as duas políticas, e o grande desafio que temos é unificar e criar uma política de educação básica integral e integrada”, diz.

O viés da educação profissional também foi citado. “As famílias e os jovens afirmaram, sim, que ter um curso técnico profissionalizante é um motivo significativo de permanência na Educação Integral Integrada, mas que apenas ele não é suficiente. Ou seja, eles querem se profissionalizar, mas também querem aprender sobre arte, inovação tecnológica, comunicação, entre outros. Para isso, vamos aproximar cada vez mais os currículos da educação técnica profissional e da parte flexível da Educação Integral e Integrada”, esclarece a coordenadora da modalidade.

Para resolver esse desafio, a SEE viabilizou para o ano letivo de 2018 uma carga horária do ensino técnico que também poderá ser completada com aulas nos campos de cultura e artes, pesquisa e inovação tecnológica e de comunicação e mídias para que os estudantes também possam ter a experiência de vivenciar outros saberes.

Manter a viabilidade do transporte foi a última das questões apontadas no estudo. “Não são em todas as escolas, mas é preciso que se construa uma forma mais articulada com as prefeituras para que o transporte não seja aquilo que impeça os estudantes de ficarem na escola integral e integrada”, ressalta Cecília.

Para superar os desafios citados no trabalho da Unesco em parceria com a SEE, foi criado um grupo de trabalho que produzirá um plano de ações, que inclui as medidas que já vêm sendo tomadas na busca de vencer os desafios.

Cecília explica que o grupo vai trabalhar em três eixos – comunicação, realocação de recursos do Ministério da Educação (MEC) para fazer obras nas escolas e a revisão dos projetos político pedagógicos de todas as escolas da Educação Integral Integrada.

“São eixos que exigem um trabalho minucioso e que são mais urgentes. A comunicação, por exemplo, será trabalhada o tempo todo, já que pensamos que professores, estudantes e seus familiares devem conhecer todos os processos que envolvem a educação integral e integrada. Para usar os recursos do MEC, por exemplo, estamos em um estudo de viabilidade jurídica para fazer obras por licitação à distância, já que o dinheiro transferido para SEE pelo Governo Federal não pode ser repassado a cada escola. E, por último, é fundamental acompanhar as escolas na reconstrução dos projetos políticos pedagógicos, pois muitas falam o tempo todo de educação integral mas tem seus PPP ainda estagnados no ano 2000”, explica Cecília.

Acordo de cooperação técnica

O acordo de cooperação técnica entre a Unesco e a Secretaria de Educação foi firmado em maio de 2017 e dura até junho deste ano. Um dos três consultores, Elizete Munhoz, realizou as entrevistas, rodas de conversa, fez visitas e chegou a uma avaliação muito positiva do trabalho conduzido e dos resultados colhidos.

“Há uma disposição muito grande de toda a rede e os desafios vão surgindo porque tudo ainda é muito novo. Mas a proposta do ponto de vista pedagógico está bem aceita, os estudantes avaliam a metodologia com muita presteza, há elogios por parte de familiares, professores e diretores. Então, são muito mais pontos positivos do que desafios, e estão todos muito dispostos a tornar o sistema cada vez mais eficiente”, explica Elizete.

Educação Integral e Integrada no ensino médio

Em Minas Gerais, o Ensino Médio Integral e Integrado começou a ser ofertado em agosto de 2017 em 44 escolas estaduais que aderiram e corresponderam aos critérios estabelecidos na portaria 1.145/2016, do Ministério da Educação, que instituiu o Programa de Fomento à Educação em Tempo Integral. A partir de 2018, mais 35 escolas passarão a oferecer a modalidade e quase 20 mil estudantes serão contemplados.

A proposta pedagógica das escolas estaduais de educação integral e integrada no ensino médio tem por base a ampliação da jornada escolar, com 45 horas/aula semanais – e com a formação dos estudantes tanto nos aspectos cognitivos quanto nos socioemocionais.

O currículo é constituído de duas partes – formação básica, que compreende as temáticas de cada área do conhecimento indicadas na Base Nacional Comum Curricular, e flexível, de acordo com três campos de integração: Cultura, Artes e Cidadania; Múltiplas Linguagens; Comunicação e Novas Mídias e Pesquisa e Inovação Tecnológica.



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