Pronunciamento do governador Fernando Pimentel durante o Fórum Regional de Governo - Território Vale do Rio Doce

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Bom dia a todos e a todas.

Quero dizer a vocês que eu sabia que era difícil ser governador de Estado, mas não imaginava que era tão difícil. Entre outras características, a gente tem que ter coração forte. Estava chegando aqui, nem tinha desembarcado, e me deram a notícia dessa tragédia que acabou de acontecer em Janaúba. Uma creche municipal, parece que o porteiro teve um surto, jogou álcool e colocou fogo em crianças. Algumas vieram a falecer e tem outras em estado grave. É uma tragédia que não tem tamanho. Daqui eu vou para lá. Você tem que ter coração forte.

Aqui é um encontro nosso de alegria, de emoção, porque a gente vem para cá não é para falar, é para ouvir. Quem for falar, fala pouco, ou nem fala. O governo está aqui para ouvir. Compartilhamos emoções como a da dona Sebastiana, sentada ali, que chorou por ganhar a chave da casa. Eu vivi a mesma emoção há pouco, em Setubinha, quando entreguei título de domínio de propriedade rural de uma senhora. Eu fui à casa dela, num distrito, e ela me disse algo no ouvido que fiquei muito emocionado: “o senhor pode não acreditar, mas vai ser a primeira noite da vida que vou dormir em paz”. Isso porque tinha o título de propriedade da terra. Isso, de alguma forma, recompensa a gente. Na vida pública a gente sofre muitos dissabores, acusações levianas, críticas e, às vezes, você não tem como se defender. A defesa do homem público é feita nos inquéritos, nos processos. Não adianta eu falar, porque não vai resolver. Quem está me acusando tem muito mais audiência, voz nos microfones da imprensa do que eu. Eu tenho que ter paciência, esperar, isso tudo vai passar, e nós estamos trabalhando. O que nos fortalece são emoções boas como essa aqui hoje.

Mas, junto com esse tipo de emoção, que é gratificante, a gente tem que ter o coração forte, porque quando vem essa tristeza como essa de Janaúba, temos que estar lá também. Vamos para lá compartilhar. Governo é como casamento, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por isso estamos aqui agora, mas daqui há pouco estaremos lá e eu vou ter uma outra emoção, triste, forte, com as famílias dessas crianças vitimadas, desses brasileirinhos, mineirinhos que morreram sem nem saber porque. É a vida... Vamos tocar para frente.

Mas aqui hoje estamos celebrando duas características muito fortes de Minas Gerais e das quais temos muito orgulho. Não vou falar das entregas e dos pedidos que foram feitos e que estamos encaminhando. Isso tudo foi falado antes de mim por aqueles que usaram a palavra. As demandas justas, a inclusão, por exemplo, da região do Leste, do Vale do Rio Doce, ou pelo menos uma parte dela, na Sudene. Estamos brigando por isso junto com os deputados estaduais e federais. Há dois meses tive que ir às pressas para Recife porque a Sudene estava reunida para votar resolução que tirava os municípios mineiros do semiárido, portanto tirava da Sudene. Conseguimos e impedimos a votação da resolução, e salvamos. Mas nós queremos é o contrário. Queremos incluir mais municípios, e nós precisamos. O regime de água mudou tanto que hoje a gente pode de maneira justa, tecnicamente comprovada, estender o semiárido até mais para baixo em Minas Gerais.

O quero dizer é que Minas tem duas características muito importantes, e que estão, nesse momento, ajudando muito a nossa gente a enfrentar essa crise avassaladora. Nós nunca vivemos crise tão profunda como essa que nós estamos vivendo na economia, com quatro anos de recessão, 14 milhões de brasileiros desempregados, crise política, institucional, social, com os cortes que estão sendo feitos, um quadro devastador que o Brasil está atravessando. Mas Minas está conseguindo se sair melhor que a maioria dos Estados, senão todos os Estados. Digo isso com orgulho, não por ser governador, mas por ser mineiro. Basta olhar no entorno, no que está acontecendo no Rio de Janeiro, falo até com tristeza, porque nós todos gostamos do Rio, somos solidários com nossos irmãos cariocas, mas no Rio de Janeiro, os serviços públicos entraram em colapso definitivo. Segurança, saúde, educação, a universidade do Estado de lá nem começou o semestre porque os professores não recebem salário. Os postos de saúde fechados, é uma tragédia. Aqui do lado, no Espirito Santo, o que aconteceu aqui na área da segurança, que entristeceu a nós todos e assustou o Brasil inteiro. Minas, graças a Deus, e graças ao trabalho dos mineiros, não está vivendo nada, nem de longe, parecido. A Polícia está nas ruas, presente, as escolhas estão funcionando, a saúde está funcionando.

Alguém poderia dizer que poderia estar muito melhor, porque tem atraso às vezes no repasse de verbas para o hospital filantrópico, falta remédio num posto aqui ou ali, demora para trocar uma viatura da polícia, do Bombeiro. Tudo bem, podia estar melhor. Mas podia estar muito pior também. Podia estar em colapso, como outros Estados estão, e nós não estamos, apesar de que a dificuldade financeira de Minas Gerais é a mesma, se não for maior, do que a do Rio, do Espírito Santo, do Rio Grande do Sul. Estados que estão saindo nesse momento muito pior do que nós.

A que se deve isso? Vou dizer com muito orgulho. É que Minas é um Estado trabalhador. Mineiro é trabalhador. Mineiro não tem essa de ficar reclamando pelos cantos, choramingando. Não. A gente acorda cedo, trinca os dentes e vai trabalhar. É isso o que eu recolho no Estado inteiro. Viajo o Estado inteiro, vou ao interior três, quatro vezes por semana, como estou fazendo aqui agora. E essa é a vocação do mineiro: acordar cedo e trabalhar. À noite, agradecemos a Deus pela saúde e pedimos mais saúde para o próximo dia. E vamos vencendo a crise. Não tem crise que resista ao trabalho. Minas é o único Estado que tem na sua denominação de origem uma profissão. No Rio é carioca, em Pernambuco é pernambucano, São Paulo é paulista, em Goiás é goiano, em Minas somos mineiros. Podia ser padeiro, carpinteiro, marceneiro, mas somos mineiros, uma profissão, aquele que trabalha na mina. Se alguém já disse que o primeiro nome de Minas é liberdade, e de fato é, está na bandeira, eu humildemente vou dizer que o segundo nome é trabalho. Nós trabalhamos muito, e porque trabalhamos muito, Minas está se saindo melhor do que a maioria dos Estados brasileiros nessa crise.

Tem outra característica que vou falar e até nos ajuda nas tragédias. E, para falar dessa outra característica, vou recorrer a um escritor mineiro famoso, que é Guimarães Rosa, que já falou muito das Gerais no Grande Sertão Veredas. Um escritor de Cordisburgo, famoso no mundo inteiro. Guimaraes Rosa tem um texto dos anos 50 em que ele diz o que é ser mineiro. Ele começa com uma frase que lembrei quando estava chegando aqui em Aimorés. Ele diz: Minas o que é? É a montanha. Depois ele explica. Ele quer dizer que, diferentemente dos povos que vivem no litoral, como os irmãos capixabas, cariocas e baianos, que têm como referência o mar, nós temos como referência a montanha. O mar é imprevisível, você nunca sabe como ele está, um dia está tempestuoso, no outro está calmo, ou azul, cinza. A montanha, que é nossa referência, é previsível. É só olhar a pedra Lorena aqui que você percebe isso. A montanha está sempre lá, solida, permanente, serena. As montanhas que nos dão a característica do mineiro: a serenidade. Que sabe esperar um dia após o outro. Que sabe que tem dia ruim, mas depois tem dia bom. Que sabe que nem pode ficar tão alegre, mas também não pode desanimar e jogar tudo fora. Olhando a pedra Lorena, o povo de Aimorés sabe que se tem dia ruim, vamos trabalhar, a crise vai passar. A montanha está sempre lá. Com trabalho, serenidade, equilíbrio, harmonia e muito empenho, vamos continuar administrando Minas Gerais junto com vocês, ouvindo vocês, para a gente fazer o melhor. Dinheiro não tem, é pouco, mas juntos vamos resolvendo os problemas, um de cada vez.

Que Deus nos ilumine e abençoe essas famílias que perderam os filhos em Janaúba. Muito obrigado!