Pronunciamento do governador Fernando Pimentel durante a posse do Conselho Estadual da Mulher

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Hoje eu vou quebrar o protocolo. Peço perdão ao presidente da Assembleia, amigo Adalclever Lopes, e a todas as demais autoridades presentes, mas a precedência aqui hoje é das mulheres.

São protagonistas as 34 conselheiras que aceitaram o desafio de compor o Conselho Estadual da Mulher e ajudar, a mim e a meu governo, a fazer cada vez melhor nossa tarefa de construir políticas em favor da igualdade de gênero em Minas Gerais. São protagonistas todas as mulheres que, gentilmente, vieram me acompanhar neste momento. Vejo aqui mineiras que representam a diversidade de nossa gente, de nossa cultura, de nossa religiosidade. Mineiras que, cada uma em sua área, são exemplos do potencial e da força de nossas mulheres, da nossa Minas Gerais.

Minhas amigas, meus amigos,

Pensei muito antes de marcar a posse do Conselho para este 8 de março. Afinal, aqui em Minas, em todo o Brasil e em todo o mundo, hoje será um dia de intensas e importantes manifestações das mulheres em favor da igualdade, da justiça e da democracia. Sei que o chamamento é para que as mulheres paralisem suas atividades, interrompam sua rotina, para deixar ainda mais claro a todos nós, homens, como nossas sociedades precisam das mulheres e devem varolizá-las. Mas minhas dúvidas sobre a conveniência deste evento ser hoje se dissiparam ao elencar as razões para termos este Conselho ativo e atuante: é impossível fazer um governo comprometido com as reais demandas das mulheres sem diálogo; é impossível ter políticas que transformem efetivamente a realidade sem que as mulheres sejam agentes dessa mudança.

Por isso, faz todo o sentido que essa posse ocorra hoje. Que a posse do Conselho seja a primeira das inúmeras atividades das mulheres de Minas Gerais neste 8 de março de lutas.

Nosso Estado sempre foi um lugar de muitas e importantes lutas. Mas, como disse Guimarães Rosa, “mineiro não se move de graça. Ele espia, indaga, protela, se sopita, tolera, remancheia, perrengueia, sorri, escapole, se retarda, faz véspera, tempera, cala a boca, matuta, destorce, engambela, pauteia, se prepara. Mas, sendo a vez, sendo a honra, Minas entende, atende, toma tento, avança, peleja e faz”.

Não é a toa que Guimaraes Rosa se referiu à Minas só no feminino. Porque assim são principalmente as nossas mulheres, as mineiras. Sendo a vez, sendo a hora, elas atendem, tomam tento, avançam e vão para a luta.

Estão conosco hoje mulheres que, nos tempos sombrios da ditadura, arriscaram até mesmo sua vida, como minha companheira querida Aretuza Garibaldi. Nos tempos atuais, são herdeiras da nossa luta pela democracia jovens como a Luana, do movimento estudantil. Mas são muitas as lutas, e ainda muitos os desafios! A representação das mulheres no Parlamento, por exemplo, ainda está muito aquém do necessário, como bem sabem as deputadas estaduais aqui presentes – Celise Laviola, Geisa Teixeira, Marília Campos e Rosângela Reis – como sabe a Áurea Carolina, a líder em votos na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte. A luta nas instâncias partidárias também não é fácil, e aqui estão as minhas amigas Cida, do PT, e Dalva Stella, do PCdoB, duas guerreiras das causas sociais e femininas.

Mas há outros desafios. A violência contra as mulheres persiste como uma das maiores chagas de nossa sociedade. A ministra Nilma viveu os desafios de construir políticas para enfrentar este problema com o qual a delegada Carolina convive cotidianamente. Nossa querida Iza Morais conhece bem as imensas transformações que ainda precisamos apoiar no Judiciário para que a violência contra as mulheres, em especial o feminicídio, seja adequadamente punido. Mulheres como a empresária Roberta Vasconcelos, a reitora Nilda Soares, a sindicalista Valéria, exemplos em suas profissões, sabem que a desigualdade e mesmo a discriminação ainda são realidades cruéis no mercado de trabalho.

Mesmo artistas consagradas, como nossas queridas Inês Peixoto e Marcela Linhares – essa vinda de um sucesso recente no carnaval de BH como regente do Então Brilha – sabem que até na cultura a igualdade de gênero é uma conquista em processo.

Olho daqui e vejo centenas de mulheres cujo nome merece ser citado.

Vejo, com especial carinho, as minhas companheiras nesta jornada à frente do governo do Estado, como a Sinara, a Macaé, a Roselene, a Larissa. Além, é claro, da Carolina, minha companheira de vida e de lutas. São centenas de mulheres que, em cada secretaria e órgão de governo, se dedicam muito a esta tarefa de construir uma Minas Gerais verdadeiramente para todos e todas. Cada uma de vocês que vieram aqui hoje para a posse do Conselho Estadual da Mulher tem uma contribuição para que todos os direitos sejam para todas as mulheres. Sou parceiro de cada mulher deste Estado na luta pelo direito à vida, igualdade e autonomia. Mas preciso de vocês nesta jornada. A gente que trabalha no setor público, eu ainda mais que sou governador, recebe todo tipo de informação, dados e números diariamente. Nosso trabalho é dar o devido tratamento, o devido encaminhamento para essa gama de diagnósticos e cenários que a gente recebe todo dia. Mas são tantos números e informações que nem sempre eles são capazes de nos tocar de forma especial. Os números são frios.

Mas hoje, quando eu recebi as informações para este evento, enquanto tomava café da manhã com a Carolina e a nossa filha, não contive a emoção. A gente sabe da gravidade da violência de gênero e vem agindo desde o início do governo para melhorar esse cenário. Mas, no contexto em que recebi essas informações, fiquei realmente comovido. Somos um estado de maioria feminina, mas ainda assim e apesar de os números estarem em queda, a cada hora 14 mulheres sofrem violência doméstica em Minas Gerais e 600 mulheres a cada grupo de 100 mil mulheres. As mulheres negras sofrem ainda mais. Dados nacionais mostram isso. Em 10 anos houve queda de 10% nos homicídios de mulheres brancas e aumento de 54% nos assassinatos de mulheres negras. Um completo absurdo. Não pude deixar de pensar na realidade que a minha caçula, nossa pequena Maria Fernanda, de pouco mais de um ano, encontrará. Realidade com a qual a Irene, minha filha mais velha, convive e contra a qual se revolta. E não pude deixar de pensar nas milhões de outras mulheres que já enfrentam obstáculos piores do que os delas todos os dias. Os números são estarrecedores e não podem continuar assim. Hoje, demos posse ao Conselho Estadual da Mulher de Minas Gerais. Uma ação que, tenho certeza, será efetiva na vida de todas as mulheres mineiras.

Esse conselho tem como principal foco de atuação a promoção da igualdade de direitos e de oportunidades entre todas as pessoas e o combate a todas as formas de discriminação. É um espaço de controle social, com interlocução e representatividade da sociedade civil organizada e do governo, na proposição e avaliação de políticas públicas voltadas para a promoção de todas as mulheres.

Por isso, é com enorme alegria dar posse a essas mulheres tão especiais aqui hoje. Nesta data tão simbólica, mas sobretudo num momento em que Minas Gerais se levanta para enfrentar aqueles que acham que governar é tirar direitos. Que é sufocar o povo. Que governar é diminuir as pessoas. Tenho certeza que as nossas mulheres estarão na linha de frente dessa luta tão importante em favor de Minas Gerais.

Além do conselho, vamos continuar a priorizar também o atendimento de mulheres vitimas de violência em comunidades quilombolas e rurais de difícil acesso com o programa Ônibus Lilás. Vamos ainda criar o Observatório de Gênero e Raça, uma rede acadêmica de estudos e pesquisas reunindo diversas universidades sobre a situação social da mulher mineira.

Então, essas são algumas das ações que nosso governo quer apresentar para a sociedade mineira como alternativa na construção de uma democracia plena. Porque está na hora de a gente lembrar da democracia. Não podemos e não vamos perder nossos sonhos por conta desses solavancos momentâneos na estrada da historia. Vamos continuar nossa luta. Para quem viveu tempos sombrios, como muitos de nós aqui, e achava que o autoritarismo já tinha se transformado em matéria de livro de escola, era quase impossível imaginar que a palavra democracia poderia ser colocada em xeque como está sendo agora. Mas é bom lembrar que a democracia só existe de fato quando há igualdade plena entre homens e mulheres. Então, infelizmente, não podemos reclamar o status democrático para o Brasil, porque nesse país homens e mulheres ainda não tem salários iguais quando desempenham as mesmas funções; homens e mulheres não dividem a responsabilidade de cuidar dos filhos e da casa como deveriam; homens e mulheres não têm a mesma segurança quando andam na rua sozinhos. E porque os meninos e as meninas não podem brincar de qualquer coisa, eles ainda continuam tendo que escolher entre brincadeira de menino e de menina. É essa a realidade que precisamos mudar.

E é esse o objetivo do governo do Estado quando promove a posse desse conselho: garantir que todos os direitos sejam para todas as mulheres. Mas tudo isso é e sempre será muito pouco se não mudarmos a cultura da violência e do machismo que cerca as relações entre homem e mulheres, principalmente dentro de casa. Cabe a cada um de nós, homens e mulheres, uma parcela de contribuição fundamental e pessoal no combate à violência de gênero. Quero um mundo melhor para as minhas filhas. Mas esse mundo só será melhor para elas se for para toda e cada uma das mulheres de Minas Gerais, do Brasil e do mundo.

Por isso, encerro em alto e bom som que o governo de Minas Gerai será cada vez um governo de todas e de todos. Viva o 8 de março. Viva o Conselho Estadual da Mulher. Viva Minas Gerais. Viva o Brasil!