Pronunciamento do governador Fernando Pimentel durante a abertura do Fórum Regional de Governo - Território Mucuri

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Bom dia a todos e a todas!

Multipliquem a pauta de cada município por 853. É a quantidade de municípios de Minas Gerais. Nós temos a seguinte escolha: ou nós ficamos de frente para a realidade de Minas Gerais, prefeitos, vereadores, lideranças políticas, religiosas - porque o Fórum Regional é isso - ou viramos as costas e vamos lá para Belo Horizonte construir Cidade Administrativa, fazer Cidade das Águas, aeroporto em Cláudio, Cidade da Música e gastar nessas brincadeiras, quando havia dinheiro, porque estou mencionando governos que me antecederam e que foram governos das vacas gordas. Só na Cidade Administrativa enterraram R$ 2 bilhões. Com R$ 2 bilhões nós resolvíamos o problema da água no Norte de Minas, no Vale do Jequitinhonha e no Vale do Mucuri. Temos projeto para isso, mas não temos dinheiro. Projetos os prefeitos todos têm, nós não temos é dinheiro. Esse Estado teve um momento em que teve dinheiro, usou mal, virou as costas para a população, foi embora sei lá para onde, acho até que para o Rio de Janeiro. Agora não. Agora estamos de frente para os problemas, mas nós temos um problema grave que é a escassez de recursos.

Nós herdamos uma dívida, um déficit, um buraco, mas nós não temos terra para encher esse buraco. A pá nós temos, sabemos trabalhar, isso é uma coisa que a gente sabe, e não temos medo de trabalho, mas está faltando terra para enchermos o buraco do déficit público de Minas Gerais, que é também do Brasil. O governo federal também está também com um déficit violento. Estou vendo aí nos jornais que são R$ 140 bilhões por ano da diferença entre o que o governo arrecada e o que ele tem que gastar. O nosso é menorzinho, de R$ 10 bilhões por ano, mas para nós é um buraco imenso. A diferença é que o governo federal, quando chega no fim do ano, o que ele faz com esse déficit? Ele deixa aberto? Não. Ele tampa, ele emite dinheiro que ele roda na maquininha, porque lá pode, nós não podemos, mas eles podem, prefeito e governador não podem, mas o presidente da República roda a maquinha, emite dinheiro ou títulos da dívida pública, e tapa aquele rombo. Nós não podemos fazer isso, não podemos emitir título da dívida pública nem dinheiro.

Então vou dar um exemplo do que acontece, eu acho importante porque nós viemos aqui no Fórum para fazer exatamente isso que nós estamos fazendo: ouvir, com humildade, com atenção, com carinho, todas as reivindicações que foram feitas. É para isso que tem o Fórum Regional. É para essa turma entender o tamanho da encrenca e começar a resolver, mas nós viemos também com a mesma humildade, com o mesmo carinho, pedir a atenção de vocês para explicar algumas situações para a gente, juntos, possa achar a solução para os problemas.

Vou fazer um exemplo simples aqui. Imagine que a arrecadação do Governo do Estado fosse de R$ 100 reais, seja por ano ou por mês. Depois que nós pagamos a folha de pagamento do funcionalismo - nós temos 620 mil servidores, metade na ativa, metade inativa -, depois que nós pagamos as 13 folhas de pagamento, porque tem o 13º salário, e repassamos o dinheiro para os municípios, porque a gente arrecada e tem que repassar o ICMS. De vez em quando atrasa um dia e os prefeitos ficam loucos, é natural. Então, repasse para os municípios, folha de pagamento, dívida com a União e a previdência que nós temos que cobrir, depois que nós pagamos tudo isso, sabe quanto sobra dos R$ 100? Sobra R$ 6. R$ 6 é o que sobra para todo o custeio da máquina do Estado. Para tudo: ambulância, Samu, remédio, hospitais, transferir dinheiro para fazer obra de pavimentação, ou de saneamento, para comprar frota nova para a Polícia Militar ou fardamento ou armamento, ou o que for. Para pagar as bolsas que nós temos que pagar para a agricultura familiar ou da Secretaria de Desenvolvimento Social. Prestem atenção, tudo o que não é folha de pagamento, pagamento da dívida com a União, Previdência e repasse para os municípios, sobra só 6% da arrecadação. Evidentemente, não dá. Aí nós temos um déficit. Esse é que é o déficit. Nós teríamos que estar arrecadando 120 e estamos arrecadando 100. Sobra 6 para cobrir os outros 20. Então, todo ano faltam 14. Quando chega o fim do ano, o que acontece? Aí ele desaparece ou você emite títulos da dívida? Não. Ele fica para o ano seguinte e vai aumentando. Esse é o tamanho da encrenca. O Roberto Jesus (prefeito de Nanuque) sabe disso. Quando é que tinha de restos a pagar quando você entrou? R$ 56 milhões. Para uma cidade do tamanho de Nanuque é um absurdo. Mas é o tamanho do rombo que você encontrou. E não tem jeito, todo ano você tem que dar um jeito de pagar um pouquinho desse atrasado, não é isso? O Estado é a mesma coisa.

Eu estou contando isso não é para justificar nada, dizer que não dá para fazer. Não, é para dizer que nós vamos, com toda a dificuldade do mundo, enfrentar o problema de frente para ele, junto com vocês, e vamos resolvendo aos poucos. Se não fosse a capacidade de a gente enfrentar o problema junto, nós não estávamos entregando 11 ambulâncias novas para o Samu da região. E não teríamos feito a estrada de Malacacheta a Água Boa. Nós vamos fazer a rodovia que o Roberto pediu. A Copasa vai fazer o acesso para a ETE e beneficiar a comunidade de Nanuque. Agora, para tudo isso, nós vamos precisar discutir com vocês como é que nós vamos alocar o dinheiro, porque tem pouco dinheiro. Tem um ditado popular que diz assim: - Farinha pouca, meu pirão primeiro. Eu sou contra. Eu acho o seguinte, farinha pouca, vamos dividir o pirão. Vamos ver como é que faz cada coisa. Tem que fazer posto de saúde, tem que reformar a escola, tem que colocar viatura nova para a PM, tem que fazer asfaltamento para o distrito. Não dá para fazer tudo, então, gente, vamos sentar e vamos colocar em ordem aqui. O que é mais importante, o que vem primeiro? Então é esse que nós fazer. E o outro? O outro, logo em seguida, quando tiver mais dinheiro, nós vamos fazer. E assim, sucessivamente. É para isso que serve o Fórum Regional. É por isso que eu fico extremamente feliz quando eu vejo o Roberto, que é meu companheiro querido, não teve nenhum constrangimento de expor quais são as demandas dele. Ele tem que fazer isso mesmo e os outros prefeitos também. E nós também temos a sinceridade de chegar e dizer que não dá para resolver tudo de uma vez. Não. Imagina se fosse assim. Poderia ter sido assim no passado, quando o dinheiro era abundante e os governos eram irresponsáveis, porque gastaram mal o dinheiro de Minas Gerais, endividaram o Estado e quebraram as estatais. Nós não vamos fazer isso, nós vamos trabalhar - e já estamos fazendo isso -, com responsabilidade, com muita parcimônia, porque o dinheiro público não cai do céu, e vamos enfrentar, como estamos enfrentando, essa crise com aquilo que Minas sabe fazer de melhor, que é trabalho, dedicação, empenho.

É o que o mineiro faz aqui no Vale do Mucuri, no Norte de Minas, no Jequitinhonha. Acorda cedo, trinca os dentes e vai trabalhar, atravessa o dia, chega de noite e agradece a Deus e vai para o dia seguinte. É o que nós estamos fazendo e com serenidade. Minas é serena, é o Estado que tem como característica, além do trabalho, ser um povo sereno. O que é sereno, é aquele cara que não briga? Não. Se chegar a hora, nós também sabemos brigar. Mas temos que ter serenidade para enfrentar as dificuldades, sem ficar reclamando, lamuriando, queixando. Tem um escritor mineiro, e eu já encerro falando dele, que eu gosto muito e que vocês devem conhecer, que é Guimarães Rosa. Ele tem uma frase em um texto célebre dele, quando ele fala da mineiridade, que é a característica de ser mineiro. O texto começa com uma frase singela, que acho que é boa para nós aqui, para a gente encerrar a nossa conversa. Ele fala assim: ‘Minas, o que é? Minas é a montanha’. O que é isso? Diferentemente dos povos que vivem no litoral, cuja referência é o mar, nós, que somos aqui do interior, temos como referência a montanha, e está lá a Pedra do Fritz, lá longe. Essa aqui perto é a Pedra do Bueno. Está lá. O mar é agitado ou é calmo, às vezes está tempestuoso, às vezes não está. Às vezes ele é verde, azul, outras ele é cinza. O mar é imprevisível, você não tem como prever o mar. A montanha, não. A montanha está sempre lá, sólida, permanente, quase eterna. A montanha é serena. A serenidade de Minas vem das montanhas. Quando você olha a montanha, você vê que ela está sempre ali. Está chovendo ou fazendo sol, a montanha está lá. Se o dia está bom ou se está ruim, a montanha está lá. Então, é esse sentimento de permanência e de pertencimento a uma terra que nós temos, que nos torna um povo sereno.

E é com serenidade que nós temos que enfrentar essa crise, as críticas, as acusações, muitas vezes injustas, as infâmias, as calúnias. Eu tenho sofrido com isso e não perco a serenidade. Continuo acordando cedo, trincando os dentes e saindo para trabalhar pelo meu estado, pela minha gente, pelo meu povo. É isso que eu vou fazer, até o dia que Deus quiser e me der saúde para isso. É isso que todos vocês fazem, os companheiros do Samu que estão aqui, os nossos socorristas fazem. Eles não querem saber se tem déficit ou se não tem déficit. Eles têm que sair para cumprir as funções deles, e eles cumprem em homenagem a vocês, companheiros companheiras. É isso que os prefeitos fazem, os professores, as professoras, os servidores, os policiais militares, os civis, os bombeiros. Nós trabalhamos.

Olhem em volta o que está acontecendo. Olhem o Rio de Janeiro, o caos que virou com o colapso completo dos serviços públicos, da educação, da, segurança. O Espírito Santo aqui ao lado há dois, três, quatro meses atrás. Cenas lamentáveis que nós assistimos naquele Estado. Minas não. Nossa dificuldade é igualzinha a deles, mas nós estamos enfrentando, com serenidade, com trabalho, humildade e dedicação.    

É por isso que o governo veio para Nanuque hoje, para ouvir vocês, para levantar os problemas, para dizer claramente que nós não temos como resolver tudo, mas dizer com muita confiança que nós juntos podemos superar qualquer crise. 

Salve Nanuque, salve Minas Gerais, salve o Brasil!

Obrigado a todos!