Discurso do governador Fernando Pimentel durante a cerimônia comemorativa da Inconfidência Mineira

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Estamos hoje aqui reunidos para celebrar a memória de dois homens, dois heróis, dois símbolos.  Tiradentes, nosso patrono, e Nelson Mandela, nosso homenageado. Ambos são personagens que permanecem no Panteão da História representando o ideal mais sublime da cidadania, o valor mais sagrado de qualquer Nação: a liberdade.

Estamos concentrados na praça em que culminou o suplício a que Tiradentes foi submetido. Aqui veio a ser exposta a cabeça do mártir, em poste de ignomínia. Lembrar essa violência também é parte do nosso dever histórico, como é parte dele lembrar os 27 anos de prisão arbitrária e injusta impostos a Nelson Mandela.

Mais do que nunca, no Brasil e no mundo de hoje, recuperar o exemplo histórico desses dois líderes é imprescindível se buscamos superar as dificuldades e os impasses surgidos em nossas sociedades.

O conflito entre o ódio, de um lado, e a tolerância, de outro, o preconceito e a solidariedade, o absurdo e a lucidez, parece hoje enredar o mundo e o nosso país numa discórdia sem fim. Basta olhar em torno, no ambiente próximo ou no mais distante para ver, por toda parte, sinais de opressão e violência, radicalismo e confronto.  Desrespeito aos direitos individuais, às garantias legalmente consolidadas, aos mais básicos preceitos da convivência humana, tudo isso vai se tornando corriqueiro nos tempos que vivemos. Falo do angustiante drama dos refugiados de guerra, da migração forçada de milhares de seres humanos afetados pela crise econômica, do desemprego cruel, da miséria e da fome injustificáveis num mundo capaz de produzir abundância e distribuir escassez. Mas falo também das perseguições políticas, religiosas, ou raciais, muitas delas respaldadas por processos claramente parciais, onde a violência e o desrespeito se ocultam atrás de ações espetaculosas, nas quais a intenção de justiçamento e não de justiça fica cada dia mais evidente.

Nesta marcha tormentosa do século 21, vamos encontrar, na personalidade singular de Nelson Mandela, uma referência que, trazendo o drama existencial de Tiradentes para o nosso tempo, sintetiza a saga daqueles que lutam pela dignidade humana e se sacrificam pela liberdade e pela paz.

Mandela dizia que ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração do homem do que o ódio.

Que bela lição em tempos de tanta incompreensão e tanta discórdia entre irmãos! Quem, mais do que Mandela, teria autoridade para pregar o amor e a paz no deserto de uma cela solitária!

É em meio às brumas do presente que devemos buscar as luzes do futuro. O País dos Inconfidentes não escapa aos ventos devastadores da crise que abre o milênio. A lição de Mandela, como a do grande Alferes, vem do sofrimento desumano a ele imposto. A vitória ainda em vida conquistada pelo líder africano, ao término da longa jornada de perseguição, é um privilégio que o nosso mártir Tiradentes não alcançou. Mas de ambos recebemos a palavra de fé e perseverança em pleno martírio. O exemplo de firmeza e cautela, altivez e resistência.

Mandela soube forjar, com serenidade e determinação, repleto de sentimento de justiça, uma estratégia única na história do nosso tempo, a fim de vencer as mais infames barreiras erguidas contra sua nação. Não lhe faltou moderação no campo minado pelas disputas, mas a bravura jamais o desamparou.

Como Tiradentes e Mandela vivemos um tempo que pede reconstrução. Aspiramos a liberdade e almejamos a justiça, hoje solapadas por uma teia de acusações que lembram as alcovas da Conjuração Mineira.

Naquele episódio fundante da nossa nacionalidade, Tiradentes foi protagonista involuntário de um espetáculo e não de um processo justo. Foi protagonista da busca ardilosa de uma expiação calculada, feita mais para encobrir do que para revelar, feita mais para distrair a razão do que para iluminá-la, feita, enfim, para condenar previamente e não para buscar a verdade.

 Senhoras e senhores,

Lembremos a Inconfidência: as acusações, quando a serviço de estratagemas, morrem. Os acusadores morrem. Mas a injustiça contra as vítimas da acusação infundada, essa é incontornável e irreparável. Por isso, o devido processo penal não pode ser atropelado pela ansiedade do condenar, de execrar, de justiçar. Um sistema jurídico perfeito não é aquele que se alimenta do estardalhaço. É aquele que silenciosamente não teme encarar os fatos e buscar as provas – e não apenas as versões – e constrói as decisões com serenidade e isenção. Quando uma sociedade se rende aos clamores de vingança, ela se rebaixa, deixa de ser republicana e democrática e retrocede ao estágio mais primitivo da trajetória humana.

Urge pois defender a democracia e os valores republicanos. Democracia e república que se fundam na igualdade de direitos, na transparência e na supressão do ódio. Que têm a tolerância e a convivência com as diferenças como princípios éticos e prática política, tal como pregou Mandela.

Em Minas Gerais, o compromisso com a paz e a fraternidade desde logo se manifesta no equilíbrio entre os poderes do Estado e na convergência de vontades em favor da concórdia e do combate aos efeitos devastadores da crise. Sem isso, não temos como ir adiante na luta pelos direitos da cidadã e do cidadão atingidos pela recessão econômica, pelas tensões sociais e pela fragilização do sistema político.

Unimos as forças vitais dos mineiros e das mineiras na direção do soerguimento do nosso Estado e do nosso País. Aqui estão os Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, ciosos de sua autonomia e de seus deveres, mas irmanados na busca do bem comum. Prefeitos e vereadores, que recentemente assumiram sua missão, compartilham conosco o desafio da hora e reconhecem ser imprescindível a soma de vontades para a saída do impasse.

Se a crise parece envolver tudo, devemos encontrar, no meio dela, a força necessária para combater a inércia e o desencanto, as frustrações e desesperanças. Há governos que dizem fazer muito, porém fazem para poucos. Hoje, em Minas Gerais, o que fazemos busca beneficiar sempre o maior contingente de mineiros e mineiras. Sabemos que as soluções exigem adesão visceral aos princípios basilares da justiça, da democracia, da igualdade e da paz. A prática da tolerância anima o nosso espírito e promove a comunhão da diversidade.

Senhores e senhoras,

Tiradentes e Mandela tornam evidente que líderes necessários são os que, surgidos do povo, a ele se mantêm fiéis, longe das falácias das conveniências, das facilidades, do engodo e do autoritarismo. O protagonista da Inconfidência queria ter dez vidas para dá-las ao Brasil. As sobrevidas de Mandela ele as entregou à África do Sul. Ambos são heróis da humanidade e nos abraçam com o calor de sua coragem.

 Caros amigos e amigas

Minas Gerais guarda nestas montanhas o sonho libertário que alimenta a nossa consciência. Sonho de liberdade, sonho de paz e de justiça, que atravessa nossa história.  E como já nos disse o poeta que os sonhos não envelhecem, quero encerrar repetindo aqui as palavras de Juscelino Kubitscheck, aquele mineiro filho de uma família humilde, que se fez presidente e líder respeitado e amado pelo nosso povo:   ​desejo a todos “a paz da justiça, a paz da liberdade e a paz do desenvolvimento”.

Viva Nelson Mandela!

Viva Tiradentes!

Viva Minas Gerais!

Viva o Brasil!

Muito obrigado.